Recomeçar pode ser bom. O problema é quando o “novo eu” vira uma forma de se atacar por dentro.
No início de 2026, muita gente promete mudar tudo e acaba em culpa e paralisia. Entenda como o “recomeço perfeito” vira autocobrança, quais sinais observar e um exercício simples para sustentar mudanças reais entre sessões.
Tem uma cena que se repete todo começo de ano. A pessoa jura que agora vai: vai organizar a vida, emagrecer, estudar, guardar dinheiro, parar de aceitar migalhas, ser mais “forte”, mais produtiva, mais tudo. E, no dia 5 de janeiro, já está cansada. Às vezes, envergonhada. Às vezes, irritada consigo. Como se o ano tivesse começado e ela já estivesse atrasada.
Se você se reconhece nisso, a pergunta não é “por que eu não tenho disciplina?”. A pergunta mais honesta é: que tipo de voz está comandando esse recomeço?
Quando 2026 vira um tribunal
O início do ano costuma acender uma fantasia coletiva: a ideia de que existe um “marco” capaz de apagar o que ficou pesado. Como se a virada do calendário pudesse resolver por nós o que é trabalho interno, elaboração, luto, limite, escolha.
Só que, quando a vida não muda na velocidade da promessa, muita gente conclui que o problema é ela. E aí 2026 vira um tribunal: ou eu cumpro a versão ideal de mim, ou eu me condeno. O nome disso, na prática, é autocobrança disfarçada de motivação.
A fantasia do recomeço perfeito
Metas podem ser saudáveis. O problema é quando elas carregam uma exigência secreta: “Se eu fizer tudo certo, eu finalmente vou ficar em paz.”
Essa promessa é sedutora, porque oferece controle. Mas também é cruel, porque transforma paz em prêmio. E paz não é prêmio. Paz é construção — com recaídas, com limites, com dias em que dá e dias em que não dá.
Recomeços grandiosos costumam falhar por um motivo simples: eles tentam fabricar uma pessoa nova para não precisar encarar a pessoa real.
Sinais de que você não está recomeçando: está se punindo
Veja se algo disso aparece em você nestes primeiros dias de 2026:
Você planeja para uma energia que não tem.
Você trata descanso como culpa.
Um deslize vira “estraguei o ano”.
Você se mede por desempenho, não por presença.
Você fala consigo de um jeito que jamais usaria com alguém que você respeita.
Se isso bate, o seu “projeto 2026” talvez esteja sendo conduzido por um pedaço seu que não quer te cuidar — quer te corrigir.
O que você tenta calar quando diz “agora vai”?
No começo do ano, a pressa por mudar pode ser uma forma elegante de não sentir. Em vez de encarar a tristeza acumulada, a frustração, a solidão, a sensação de “deu errado”, a mente propõe: “Vamos reinventar você.”
Só que reinventar, às vezes, é fugir.
Uma pergunta que vale ouro neste início de ano é: o que eu espero que desapareça se eu cumprir essas metas?
Ansiedade? Vergonha? Um vazio? Um medo? Uma relação que pesa? Uma vida que não está cabendo?
Quando você encontra essa resposta, o recomeço fica mais verdadeiro — e menos violento.
Recomeçar bem é abandonar o 8 ou 80
Tem gente que só conhece dois modos: “mudar tudo” ou “não fazer nada”. E esse pêndulo não é falta de caráter. É um jeito de tentar se proteger.
O problema é que o “mudar tudo” cobra caro. E, quando quebra, a queda vira prova de “fracasso”. Aí a pessoa abandona o plano e reforça a crença: “eu nunca consigo”.
O caminho mais eficaz e mais respeitoso costuma ser o menos glamouroso: passos pequenos, repetidos, com continuidade. Sem espetáculo. Sem humilhação.
Um exercício de 7 dias para começar 2026 sem se esmagar
Faça por uma semana. Não para “virar a chave”. Para construir chão.
1) Escolha 1 foco só (não 7)
Um foco. Ex.: sono, ansiedade, organização, alimentação, estudo, limites, rotina. Escolha o que, se melhorar um pouco, melhora o resto.
2) Defina o mínimo viável (10 minutos)
O mínimo que você consegue fazer mesmo num dia ruim.
Ex.: 10 minutos de caminhada, 10 minutos de arrumar uma área, 10 minutos de leitura, 10 minutos de escrita, 10 minutos de respiração.
3) Combine com você uma frase justa
Não é frase positiva. É frase que não te humilha.
Ex.: “Eu não preciso provar nada para merecer cuidado.”
Ou: “Eu posso recomeçar sem me agredir.”
4) Regra de ouro: parar no tempo combinado
Se der vontade de “aproveitar e fazer tudo”, ótimo — mas pare. O treino aqui é sair do exagero e criar confiança.
5) No sétimo dia, revise sem julgamento
Duas perguntas:
– O que funcionou do jeito que eu sou, na vida que eu tenho?
– O que eu estava exigindo que era irreal?
Isso é maturidade emocional aplicada ao cotidiano: ajustar o plano à vida real, e não a vida ao plano.
O que muda quando você faz assim
Você para de usar “melhora” como punição.
Você começa a construir uma coisa rara: uma relação confiável consigo. E é isso que sustenta mudança. Não é a euforia do dia 1. É a consistência pequena do dia 5, do dia 12, do dia 27.
Talvez 2026 não precise ser o ano em que você “vira outra pessoa”.
Talvez precise ser o ano em que você para de se tratar como projeto defeituoso.
Recomeçar, de verdade, não é se cobrar mais. É se abandonar menos.
Psicanalista, psicoterapeuta, terapeuta comportamental e criadora da Psíquicoterapia, abordagem que integra escuta profunda, compreensão do funcionamento psíquico e passos possíveis entre sessões.
